Avaliação não é ameaça
Por
Luis Carlos de Menezes, 01/08/2008
"A escola que fazia o estudante
aprender para passar nas provas agora ensina para ela mesma ser aprovada".
As provas devem servir para
acompanhar o processo de aprendizagem do aluno, e nunca ser temidas como
sentenças.
Julgamentos e estimativas são sempre
necessários. Um simples olhar avalia uma vaga de estacionamento ou a
deselegância de um gesto. Uma rápida operação mede a pressão arterial ou
verifica o saldo bancário. Somente a análise complexa, no entanto, diagnostica
um paciente ou uma grande organização. Avaliações educacionais, por sua vez,
verificam habilidades de alunos e o desempenho de redes escolares. Os
objetivos, nesse caso, são tão diferentes quanto os de exames médicos que
orientam tratamentos ou de provas para certificar profissionais e classificar
serviços.
As avaliações mais importantes são
as que orientam o ensino, integradas ao processo de aprendizagem, e não simples
provas periódicas. Ao propor uma gincana em que as crianças escrevam bilhetes
anônimos e numerados, com instruções para ações dos colegas, a professora que
acaba de assumir uma turma desenvolve uma boa socialização enquanto verifica as
competências de ler e escrever de cada um. Atividades desse tipo, da Educação
Infantil ao Ensino Médio, revelam mais do que provas. Porém, o uso delas é tão raro
quanto o de diagnósticos iniciais. O resultado disso é que, às vezes,
expectativas de aprendizagem equivocadas somente são percebidas quando já é
tarde demais.
Quando as turmas são grandes, em vez
de levar pilhas de trabalhos para corrigir (e às pressas, pois a vida é curta),
é melhor o professor instruir os estudantes para que se auto-avaliem em
atividades de classe ou de casa. Sabendo contornar possíveis limitações, a
escola pode orientar as famílias para se tornarem parceiras no processo,
mostrando os objetivos das etapas do ensino e o que será verificado em provas
parciais. As finais ganham a função de confirmar e certificar o trabalho, mas
insucessos põem em questão a própria escola.
A qualidade da Educação deve ser
aferida, e as provas gerais têm esse papel, nem sempre bem interpretado.
Classificar escolas lembra "coisa de mercado" e, como provocação, eu
diria que a escola que fazia o estudante aprender só para tirar boas notas nas
provas - como alguém que cuida da saúde só para passar no exame médico - agora
também ensina para ela mesma ser aprovada.
Avaliações como a Prova Brasil
permitem planejar o aperfeiçoamento de escolas e redes. Já o Exame Nacional do
Ensino Médio, o Enem, foi concebido para que cada jovem, ao fim da Educação
Básica, possa mostrar as competências adquiridas para se expressar, compreender,
intervir, argumentar e propor, mas também pode servir para apontar a uma escola
como está o desempenho médio dos estudantes.
Cabe a esses exames orientar, e
nunca "carimbar" uma instituição - e é bom evitar comparações
absolutas entre escolas e professores atuando em situações diversas. A
sociedade e o Estado precisam saber que quem trabalha em condições difíceis e com
público carente está na trincheira da equidade social e do desenvolvimento,
sendo assim a vanguarda - não a retaguarda da Educação.
Em síntese, em quaisquer
circunstâncias, avaliações são meio ou confirmação de nosso trabalho, nunca sua
razão de ser. Assim, devem ser vistas como recursos para aprender e ensinar
melhor, nunca temidas como sentenças, nem pelo aluno nem por nós.
Atividades
1) Se as avaliações devem ser
vistas como recursos para aprender e ensinar melhor, por que ainda prevalece a
cultura de provas periódicas como principal forma de medir desempenho escolar?
2) Como equilibrar a
necessidade de exames gerais, que classificam escolas e redes, com o risco de
transformar a avaliação em um mecanismo de mercado, em vez de um instrumento de
equidade social?
3) De que maneira a
participação ativa de estudantes e famílias em processos de autoavaliação e
acompanhamento pode transformar a relação entre escola, aprendizagem e
sociedade?
Caminhos de reflexão para cada
uma dessas questões.
Por que ainda prevalece a cultura
de provas periódicas como principal forma de medir desempenho escolar?
Muitas vezes, provas são vistas como instrumentos
práticos e rápidos de padronização, facilitando comparações entre alunos e
escolas.
Há uma tradição histórica que associa avaliação ao
controle e à classificação, mais do que ao acompanhamento da aprendizagem.
A mudança exige formação docente e políticas
educacionais que valorizem práticas avaliativas integradas ao ensino, o
que nem sempre acontece.
Como equilibrar a necessidade de
exames gerais com o risco de transformar a avaliação em mecanismo de mercado?
É preciso diferenciar avaliação diagnóstica (que
orienta melhorias) da avaliação classificatória (que ranqueia escolas).
Exames nacionais podem ser usados como ferramentas
de planejamento, mas não devem ser interpretados como “sentenças” sobre a
qualidade de uma instituição.
O equilíbrio depende de políticas públicas que
reconheçam contextos distintos e valorizem escolas que atuam em condições
desafiadoras.
De que maneira a participação
ativa de estudantes e famílias pode transformar a relação entre escola,
aprendizagem e sociedade?
A autoavaliação dos alunos promove autonomia e
consciência sobre o próprio processo de aprendizagem.
O envolvimento das famílias fortalece a parceria
escola-comunidade, tornando os objetivos educacionais mais claros e
compartilhados.
Essa participação ajuda a deslocar o foco da nota
para o desenvolvimento integral, criando uma cultura de aprendizagem
contínua.
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